De pães e velhas.

Aí contei umas moedas, catei outras debaixo do sofá e fui comprar pão. Observei uma velhinha magricela na frente da padaria falando com o pessoal. De longe lí nos lábios o clássico "Deus abençoe" e mais à frente parou junto a umas testemunhas de jeová. Passei ao lado e a ouví dizer "...E ele é especial não pode ficar sem tomar café". Seguí meu caminho e ouço chamar "Moço, moço", me viro e é a tal velhinha. Me disse que o filho havia sido assaltado, levaram todo o salário dele e perguntou se eu não poderia comprar quatro pãezinhos para ele. Respondí que quatro eu ia comprar para mim, se quisesse eu lhe daria metade. Ela aceitou. Enquanto comprava fiquei buscando chances de isso ser um possível golpe. Quando a gente mora à quase trinta anos neste lugar aprende a não confiar em ninguém.Fica doente mesmo. Mas no final pensei: Bom, são pães, né?
Na saída dei-lhe os pães ainda quentes. Ela me desejou a benção do seu Deus, respondi meu sempre educado "amém", dei as costas e seguí meu caminho a pensar: Ela passou por quem tinha muitos pães (a padaria), pelas pomposas, bem vestidas e orgulhosas da benção de Jeová suas testemunhas e no final teve de um desempregado (chamado pela sociedade de vagabundo), ateu, barbudo, esquisitão e desajustado dividir os pães com a senhora. Parei de pensar no possível golpe e agora questiono quem dentre nós realmente está doente.